gosto de música. começo por dizer que gosto muito de música para não vir a ser mal interpretado. e por gostar muito de música é que não gosto da maioria da música que se faz agora. entenda-se este agora como os últimos anos, em que a música – e a cultura, de um modo geral – se democratizou.
democratizou-se no acesso às massas, o que acho bem.
democratizou-se enquanto forma de expressão cultural, emocional e sentimental, o que acho extraordinário.
democratizou-se na diversidade de culturas, sociedades, ritmos e tribos que ouvem e fazem música, o que não me aquece nem me arrefece.
mas democratizou-se no direito de (quase) qualquer um (artista ou banda) a poder transformar num produto comercial devidamente embalado, prestes a ser globalizadamente colocado à disposição do consumidor. e isso chateia-me bastante.
a mim que até sou a favor da maioria das democratizações (não confundir com democracias). acho piada até que um zé pegue no seu banjo algures entre uma favela do rio e a muralha da china e eu o consiga ouvir (ao banjo, não ao zé) enquanto me sento a escrever estas linhas em que os vossos olhos se cansam. o que começo a não suportar é a quantidade (normalmente na razão inversa da qualidade) de cd’s, dvd’s, ipods, mp3, downloads, e demais sucedâneos que vos pareçam adequados com que nos deparamos todos os dias.
[não obstante esta imensidão as rádios conseguem passar as mesmas quinze músicas da playlist durante meses seguidos, mas isso é outra discussão.]
onde é que eu ia? ah, a quantidade de bandas boas que aparecem num ano cabe na palma de uma mão. destas, as que têm um segundo álbum com décibeis qualitativamente no limite do aceitável são ainda menos. a quantidade de discos bons (com bê grande) durante um ano é a décima parte dos discos maus (com eme pequeno). para cada banda que surge e têm êxito (leia-se: vende discos comó caraças!) aparecem dezenas de réplicas ocas de talento, desejosas de se colar a uma fórmula de êxito puramente comercial e que pouco tem a ver com música. podia tratar-se de vender gravatas na feira da ladra que essas réplicas apareciam na mesma.
bandas com qualidade, cuja estética sonora preenche o mais amplo dos espaços etéreos, cuja leveza do som se alia à força das palavras para nos penetrar aquele bocado de terra interior que julgávamos ser só nosso, para nos transportar por inteiro ao mais belo dos sorrisos e emoções, bandas dessas há poucas. e a surgirem de novo quase nenhumas.
e é aqui que eu não gosto da democratização da música. dantes ouviam-se as boas bandas (excluir movimentos sociais disparatados dos quais a humanidade um dia se arrependerá). e conheciam-se todas pelo nome. mais o apelido dos dois guitarristas se os tivesse. e idades, e cidade, e discografia (que dantes, regra geral, ultrapassava em muito o actual álbum e meio de média), e autores da letra de cada faixa. e amava-se (com) aquela música.
as outras, salvo nos ditos movimentos, eram votadas ao esquecimento, onde o seu ruído pertence por direito próprio. agora, ouvem-se as más. à força e em massa. e são muitas. e são mais. desde que começaste a ler este texto já deverão ter aparecido centenas, milhares de bandas de brittish rock, reggae, heavy-metal, punk rock, new age, nouvelle vague, trash yeah, bois bands, street power, hip-flop, funny metal, get so loud, ye yes, das quais nos lembraremos de aproximadamente zero ainda antes de terminar este texto. esta democratização, meu amigo, está prestes a matar a música.
hoje conheço a música de duzentas bandas das quais nunca soube o nome. aprecio, assim com gosto e tudo, cinquenta ou sessenta bandas cujo nome já soube mas não consigo recordar. e isto está a matar a música do passado. a memória atraiçoa-nos porque as bandas são muitas. e são mais. e são demais. por isso não gosto da democratização da música.
e isto tudo porquê, afinal? porque ainda há bocado me queria lembrar daqueles mans - bastante apaneleirados, por sinal - que cantavam o who can it be now? / who can it be... now? e não conseguia. e naquele momento, meu amigo, fui um homem triste. não por mim, que o google resolve tudo. mas pela música.