
[ou: emma goldman revisitada;
ou: porque não gosto de dançar.]
se eu não puder ter internet, esta não é a minha revolução.
acordar num sábado de manhã com um filha da puta de um berbequim no andar de cima.
noite de quinta
para sexta,
tinto para dois
num copo de três.
fomos para o quarto
mais o diabo a sete
no corpo.
contei até despe,
acho que me vinte.
éle um, reload,
noves fora
nada feito.
contas desfeitas
ficaste a zero,
e eu feito num oito.
contrai-se uma dívida, que se expande até ao infinito.
não olhes assim para mim. não tenho culpa. não fiz nada. nunca fiz nada. limito-me a existir. não olhes assim para mim. sou só um texto. estou aqui. limito-me a estar aqui. nem sequer existo. sou só um texto e estou aqui. que faço aqui? que merda de pergunta. e tu, que fazes aqui? também não gostas de perguntas parvas, pois não? eu sou só um texto ridículo e estou aqui. e estou bem aqui, obrigado por perguntares. e, crê-me, ficarei por aqui. pelo menos até tu fazeres scroll down. ainda assim olhas para mim, desconfiado. mas eu não tenho culpa da tua tristeza. sou só um texto, afinal de contas uma história qualquer. uma vida qualquer. a tua. eu sou só um texto. e estou aqui. tu, nem sei. mas que vou eu saber se sou só um texto? um conjunto de letras e pontos finais. mais nada. ok, um ou outro ponto de interrogação, mas foste tu que começaste com essa merda. eu ia chegar ao fim sem te perguntar nada. não olhes assim para mim. não tenho culpa. sou só um texto ridículo e, por estranho que pareça, estou bem aqui.
- if i die, tell mom i love her.
- llwelin, your mom is dead.
- well, then i tell her.
há umas semanas escrevi isto e enviei para a minguante. como boa revista que é, a minguante não publicou esta treta.
baltazar tinha tanto azar na vida como no nome.
em jovem sonhava ser futebolista. entrou em campo com o pé direito. saiu lesionado.
mais tarde quis ser actor. os colegas desejavam-lhe muita merda, mas sempre depois da actuação.
estava tão convencido do azar com que tinha sido baptizado que se suicidou naquela quinta-feira 12.
- o que é que estás a fazer?
- a ler.
- sim, mas o que é que estás a ler?
- a ler.
- 'tá bem, mas estás a ler o quê?
- a ler.
- não sejas pateta, pá. estás a ler o quê?
- a ler. a revista.
- sim, mas que revista?
- a ler.
- oh, vai-te foder.
- também não é preciso seres ordinário.
tresleio sempre aquilo do bloco de esquerda como: juntar forcas.
só para avisar os mais incautos (que os há - oh!, se os há) que o enorme José Bandeira publicou mais aventuras do Rufino. o mais incrível é não ser preciso pagar para ler coisas destas:
"Rufino tentou o solipsismo, mas as outras pessoas não paravam de existir."
a vida é uma passagem de nível. sem guarda. no fundo a vida é um jogo do super mário.
e, antes que me esqueça, um abraço ao miguel cardina.
fui o alvo dos teus raios
te partam, em cheio,
parece impossível.
fui caindo no vazio
de uma rima previsível,
puta que pariu.
fizeste promessas, mentiras,
nem tiras nem pões
as mãos no fogo, lento,
futuras traições.
eu quero, mas não sei se devo.
e entre o deve e o haver,
o leve e o lazer.
agora foges, ó topete
debaixo dos pés, pelas mãos
que apertam
o nó na garganta.
afunda a cruz ao fundo do túnel,
carreguei, não vi a sacra
mas o calendário não engana
e todos os dias
são sexta-feira santa.
(que pouco dura a emoção,
tão pouco cura o coração.)
eu quis fintar a saudade
mas nunca fui bom no um p'ra um.
depois da bonança, tempestade
e o jogo adiado, ad eternum.
ainda quero, mas não sei se devo.
e entre o deve e o haver,
o breve e o prazer.
a vida é só isto
e pouco mais nada:
afago as mágoas
num copo de tinto.
absinto muito
e glórias passadas
a ferro, mortas,
sepultadas
e fósseis,
elos perdidos
a meio do caminho,
uma espécie de jogo já extinto.
(lembras-te?)
entre uma casa
comigo, imberbes, petizes,
ficávamos no meio da rua
da amargura, e felizes.
hoje quero, mas sei que não devo.
e entre o deve e o a ver,
que breve é o prazer.
e ora eu, ora tu
muitos oras depois,
eu roma e tu atenas.
o eterno jogo: ódio-amor.
dois para dois,
balizas pequenas.