terça-feira, dezembro 12, 2006

toma lá uma sala de fumo

Miguel

Entrava na sala fria sempre descalço. Espirrava duas ou três vezes seguidas antes de conseguir dizer boa noite. Continuava a caminhar. Com o olhar sempre fixo na janela como se alguém o esperasse lá ao fundo. Ou do outro lado. Do lado de fora, onde ingenuamente pensava um dia conseguir chegar. Ignorava os olhares mudos que seguiam o seu trajecto. Sorria um olá disfarçando a dor de garganta que já o atormentava há tanto tempo quanto a memória o permitia recordar. Escondia na mão direita um isqueiro em tons de salmão. Na outra, escondia a força de um sonho repetido a cada noite passada em branco. Sempre no bolso das calças sujas e rasgadas pelo tempo. Como todas as outras noites inclinou-se, cotovelos apoiados e acendeu um cigarro. Como todas as outras noites fumou. E esperou. Mas a lua não apareceu. E o sonho despediu-se com um beijo e sussurrou-lhe até amanhã. Amanhã estaria ali, com a mesma mão, as mesmas calças, a mesma dor de garganta, a mesma janela, o mesmo sonho adiado. Só o cigarro, esse seria outro. Que este desaparecia lentamente transformando-se em espirais a dançar no escuro da noite. Chegava ao fim o momento do dia em que mais ninguém interessava. Só ele, e o cigarro que se findava. Só ele, e o sonho que o desesperava. Amanhã repetir-se-ia a história. E quando finalmente se ia despedir dos olhares até então incógnitos, apagou o cigarro esquecendo-se que estava descalço e a única coisa que conseguiu dizer foi: foda-se!

8 Comments:

Jp said...

Este poema pseudo-homoerótico é baseado em factos verídicos ou quê?

Não, tou a gozar, tá bem bonito, sim senhor...já tenho comentado com muita boa gente, és um escritor como muita gente gostaria de ser (eu, por ex.!), por isso continua a dar-lhe aí!

Jp said...

P.S. - Já não me lembrava das calças à gaja, pois é....

red^mosquito said...

eh por estas e poroutrasque amo os meus amigos..

Jp said...

agora disseste tudo...

joão said...

obviamente, qualquer semelhança entre os factos e personagens descritos e a realidade É pura coincidência.

JG

M.Ferreira said...

És grande puto.

M.Ferreira said...

Todos temos as nossas salas de fumo, é preciso é deixá-las sair(ou deixá-las entrar).
Gostei muito mesmo.Fico à espera do próximo.De cigarro na boca.

(claro que qualquer semelhança é mesmo pura coincidência!)

Aquele abraço

M.Ferreira said...

Já agora.Alguém tem lume?