segunda-feira, julho 16, 2007

Eleições Lisboa*

Durante semanas (quantas? demasiadas.) bombardeiam-nos com horas e horas de informação em telejornais nacionais, capas e florestas inteiras de jornais com dia-a-dias de campanhas, entrevistas escalpulizadas ao pormenor sem qualquer conteúdo a todos os candidatos, transformam umas eleições intercalares para uma Câmara Municipal em eleições Autárquicas com carácter nacional, sob a clássica desculpa de que Lisboa é o microcosmos representativo da política portuguesa. Discutem-se nadas, dissecam-se insinuações, intrigas, siglas, graffitis, fados e fantochadas. Branqueiam-se as corrupções como se tivesse sido o Sampaio a dissolver o executivo. Fecham-se os olhos a ultranacionalismos sob a égide da liberdade de expressão. Transformam-se as eleições numa luta do povo. Renovam-se os slogans de cartões ao governo, as eleições locais têm sempre/não têm nunca (riscar o que não interessa) leituras nacionais conforme a cor, o dia, o líder da oposição (quando existe, o que não é o caso) ou o estado do tempo. E nós ouvimos. E nós comemos isto tudo. E nós calámos.

E à falta de "novos desenvolvimentos no caso da pequenina Maddie", em época de defeso em que o Benfica ainda não começou uma série que se adivinha magnífica de jogos com toda a terceira divisão suiça, lá fomos todos durante semanas conhecendo os problemas de Lisboa. Que são os problemas de todos. Todos conhecemos o drama do Bairro dos Loios. Somos amigos íntimos do Arq. Manuel Salgado. Tratamos por tu o Zé. Aprendemos o significado das siglas. Andámos de bicicleta entre o Padrão dos Descobrimentos e a Praça Sony. Respirámos o ar puro do Corredor Verde e juntámos +1 à Portela. Indignámo-nos com parte de trás da Frente Ribeirinha. E com a ajuda de todos, resolveríamos estes problemas que são de todos. De todos nós. A vida de um país melhora com uma Câmara de Lisboa disposta a resolver os problemas dos 10 milhões de lisboetas.

E esta é a questão nacional. Estratégia: o PS perde, o governo perde e a vida dos 10 milhões de portugueses melhora. O que é que correu mal? O sol, a praia. A culpa foi do Sol. Mas afinal choveu. Pois, é isso. A culpa foi da chuva. Que nós não temos culpa. Nós estamos aqui para resolver os problemas dos 10 milhões de lisboetas. O Sol, perdão, a chuva, e depois o Sol outra vez é que não deixaram.

Se o PS tivesse perdido as eleições, os 10 milhões de lisboetas teriam ganho. Se o PS tivesse perdido as eleições, era ver Rosetas e Carmonas, Negrões e Marques Mendes (este é lixado pôr no plural), Zés e PêCês, Telmos e Portas a clamar por vitória, a pedir cabeças de ministros, a falar em cartões (e não tem nada a ver com o Zéquinha) ao Sócrates, a proclamar a vitória do povo sobre o governo opressor e autoritário. E, claro, a tirar as tais "ilações nacionais". Mas como o PS não perdeu, estas eleições são apenas locais. Nem votou assim tanta gente. Se calhar nem se passou nada aqui. E é um escândalo - um escândalo - agora vir malta de outras terras festejar a vitória numas eleições de Lisboa, que não são eleições nacionais. Apenas dizem respeito a Lisboa e aos lisboestas. 200 mil e não mais do que isso. Os restantes 10 milhões não tinham nada que ver televisão, ouvir rádio e ler jornais e ficar bem informados. Culpa vossa. Nossa, claro.


É claro que é ridículo o encher da sala dos festejos à custas de excursões peregrinas que vieram à sandocha. Mas de um ridículo vergonhoso. De um ridículo que espelha a podridão que grassa no interior do(s) partido(s). Mas de um ridículo tão óbvio que até fica mal dizê-lo mais vezes. Ridículo.


E prontos. É favor descer o pano, fechar a tenda e calar os palhaços. Foi bom, mas acabou-se. A silly season volta a ser o que era, espera-se. Que isto num ano sem Europeu nem Mundial nunca se sabe.




*Mas o que me fode mesmo é a Argentina ter levado 3 do Brasil.

6 Comments:

Jp said...

Tá calado, não digas disparates!! Quem me dera a mim um boletim de voto onde pudesse por uma cruz simultaneamente no MRPP e no PP e dizer que estava indeciso! E não digas mal dos pequeninos, que se não fossem eles, não nos tínhamos divertido (lembram-se do Telmo e dos grafittis?)... Dos grandes podes dizer mal, já são crecidos para se defenderem sozinhos...

João Gaspar said...

Eu não disse mal dos pequeninos, mas da cobertura manifestamente exagerada que foi dada a isto tudo. E inequivocamente alienada dos reais interesses do país, como os próprios lisboetas o acabaram por mostrar ao marimbar para o boletim na urna.

O mediatismo tem destas coisas. E uma das consequências é o imediatismo (não resisti ao jogo fácil de palavreado) e o carácter efémero da memória.

Se tivesses votado nas legislativas, lembravas-te que tinhas tido um boletim de voto com o MRPP e o PP, pá! Se por acaso não disfrutaste dessa oportunidade, tá quase aí 2009.

Um abraço.

E digo mal de quem quiser, a mim ninguém me ca...!

Ledbetter said...

Grande texto!

Talvez tenhamos em parte a classe jornalística que merecemos. Previsível, provinciana e subserviente ao que é de mediático e imediato (ahh, o fantástico jogo de palavras.). De qualquer maneira, há algo de caridoso na expressão corriqueira “Silly Season”, não será o ano inteiro? Talvez não. Mas apeteceu-me exagerar para parecer superior a isso tudo. O Vasco Pulido Valente iria certamente concordar.

Abraço.

João Gaspar said...

O Vasco Pulido Valente iria certamente concordar? Ó diabo. Tenho que começar a autocensurar-me então! ;)

"silly season" é efectivamente caridoso. é miminho, nalguns casos. a gente perdoa os maus filmes, as não-notícias, as reposições de séries e concursos idiotas, a interrupção daquela série que estavamos a acompanhar, as ultrapassagens nas curvas da nacional... (continua indefinidamente) porque é a silly season. Agora isto? Isto que aqui se passou... Já não há pachorra. E não tem desculpa possível tanta alarvidade e falta de interesse junta.

Abraço!

Vítor Neves Fernandes said...

Afinal é aqui a festa: A Argentina é o Brasil de Portugal.

João Gaspar said...

A Argentina o quê?